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Morreu
Francisco Torquato do Rego, “Xico
Cuxia”.
Um cidadão honrado. Vivia sempre de bem com a vida. Não transmitia
tristeza. Só alegria e otimismo. A nossa amizade começou em 1966,
quando com 21 anos de idade cheguei num fim de tarde a cidade de Pau
dos Ferros, onde ele morava. Era candidato a deputado federal, como
fundador do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), partido liderado
por Ulysses Guimarães, que combatia a ditadura implantada no país.
Aconselhado
pelo seu irmão Raimundo Torquato (“Babu”), velho companheiro de
lutas, procurei “Xico” e o seu irmão Geraldo Torquato, advogado
e promotor de justiça. Ambos moravam em sobradinho, conhecido na
cidade como “República”. Pedi aos dois apoio eleitoral. Estava
preparado para receber um “não”,
como acontecia com freqüência, em outros municípios. Todos temiam
os militares, que usavam o poder contra quem fosse oposição à
Revolução de 1964. Pessoalmente, fui convocado três vezes
(semi-preso) à Delegacia da Ordem Social do estado. O meu crime era
não estar ao lado dos revolucionários. As forças eleitorais da
época apoiavam à unanimidade a ARENA, o partido do governo.
Surpreendi-me
com a reação de Geraldo e “Xico”. Disseram-me que contasse com
o apoio deles e a partir daquela hora exigiam que me hospedasse na
“República”, quando fosse a Pau dos Ferros. Andei com os dois
vários municípios da redondeza. Fazíamos comícios nas pontas de
esquina, em cima de tamborete. Em Luis Gomes, terra natal de Xico
levou-me ao tradicional casarão do seu pai, na rua principal. O
velho Gaudêncio Torquato do Rego era um gentleman,
ao lado da sua dedicada esposa, Maria Alves de Figueiredo. Logo
convidou-me para sentar na larga e farta mesa, que a todos acolhia.
Admirei o velho Gaudêncio pela sua pertinácia, em criar numerosa
família, a todos dispensando carinho e afeição.
Anos
depois, já em outras lutas eleitorais, “Xico” me aproximou de
José Torquato, irmão que praticamente o criou, após a perda da mãe
aos quatro anos de idade. José Torquato construiu sólida e
competente liderança política em São Miguel. Um dos homens mais
dignos, que conheci na minha trajetória política.
Em
Brasília, já eleito deputado federal, “Xico” ligou-me e pediu
que procurasse Dr. Luiz Torquato, seu irmão, altamente respeitado no
meio médico da capital federal. Guardo muitas recordações de
solidariedade de Luiz. Não media esforços para fazer um favor.
Dirigiu o hospital distrital do DF e os conterrâneos –
independente de posição política – eram atendidos, quando o
procuravam.
“Xico
Cuxia” faleceu com 72 anos de idade. Era forte física e
espiritualmente. Resistiu a enfermidades graves, como operação de
safena, aneurisma, problemas pulmonares. O seu temperamento aberto
atraía amizades. Quando encontrava alguém triste logo perguntava:
“tristeza por quê? Está devendo, ou levou chifre?”. Uma das
maiores dores que teve foi o acidente com o seu dileto amigo de
infância, Adelmo Aquino, que sobreviveu e é paraplégico. Viajou à
SP e lá passou mais de um mês para acompanhar de perto a
recuperação de Adelmo.
“Xico”
deixa viúva a esposa amiga e solidária, Maria Feliciano do Rego
Torquato e os filhos Ana Fabíola Nunes do Rego Torquato, casada com
Dr. Glauber Rego; o vice-prefeito de Pau dos Ferros, Luiz Fabrício
Rego Torquato, liderança política emergente, casado com Renata;
Monalisa do Rego Torquato, casada com Lindolacio Aquino e José Fábio
do Rego Torquato.
Choro
a morte do amigo “Xico Torquato”. Procuro cultivar sempre a
gratidão. E a ele devo a solidariedade política e a amizade
permanente. O seu perfil humano, na expressão de Mark Twain, era
semelhante a um tipo de linguagem, que o surdo ouvia e o cego
conseguia ler. Ele possuía coração, que nunca endurecia;
temperamento que não oprimia e toque pessoal que não abrigava a
mágoa, ou o ressentimento.
Partiu
Xico Torquato. De longe, avistamos o barco em que navega na
eternidade. Como Drummond repetimos o verso: “o
barco lá fica banhado de brisa aveludada, açúcar, e os bem-te-vis,
já esquecidos, de perpassar, dormem no espaço”.
Que
Deus o receba e o acolha para sempre!
- Ney Lopes – Jornalista e ex-deputado federal
Artigo publicado no jornal Gazeta do Oeste
13/12/2009 - Mossoró - Rio Grande do Norte
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