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Ao amigo “Xico Torquato” PDF Imprimir E-mail
13-Dez-2009

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                Morreu Francisco Torquato do Rego, “Xico Cuxia”. Um cidadão honrado. Vivia sempre de bem com a vida. Não transmitia tristeza. Só alegria e otimismo. A nossa amizade começou em 1966, quando com 21 anos de idade cheguei num fim de tarde a cidade de Pau dos Ferros, onde ele morava. Era candidato a deputado federal, como fundador do MDB (Movimento Democrático Brasileiro), partido liderado por Ulysses Guimarães, que combatia a ditadura implantada no país.

                Aconselhado pelo seu irmão Raimundo Torquato (“Babu”), velho companheiro de lutas, procurei “Xico” e o seu irmão Geraldo Torquato, advogado e promotor de justiça. Ambos moravam em sobradinho, conhecido na cidade como “República”. Pedi aos dois apoio eleitoral. Estava preparado para receber um “não”, como acontecia com freqüência, em outros municípios. Todos temiam os militares, que usavam o poder contra quem fosse oposição à Revolução de 1964. Pessoalmente, fui convocado três vezes (semi-preso) à Delegacia da Ordem Social do estado. O meu crime era não estar ao lado dos revolucionários. As forças eleitorais da época apoiavam à unanimidade a ARENA, o partido do governo.

                Surpreendi-me com a reação de Geraldo e “Xico”. Disseram-me que contasse com o apoio deles e a partir daquela hora exigiam que me hospedasse na “República”, quando fosse a Pau dos Ferros. Andei com os dois vários municípios da redondeza. Fazíamos comícios nas pontas de esquina, em cima de tamborete. Em Luis Gomes, terra natal de Xico levou-me ao tradicional casarão do seu pai, na rua principal. O velho Gaudêncio Torquato do Rego era um gentleman, ao lado da sua dedicada esposa, Maria Alves de Figueiredo. Logo convidou-me para sentar na larga e farta mesa, que a todos acolhia. Admirei o velho Gaudêncio pela sua pertinácia, em criar numerosa família, a todos dispensando carinho e afeição.

                Anos depois, já em outras lutas eleitorais, “Xico” me aproximou de José Torquato, irmão que praticamente o criou, após a perda da mãe aos quatro anos de idade. José Torquato construiu sólida e competente liderança política em São Miguel. Um dos homens mais dignos, que conheci na minha trajetória política.

                Em Brasília, já eleito deputado federal, “Xico” ligou-me e pediu que procurasse Dr. Luiz Torquato, seu irmão, altamente respeitado no meio médico da capital federal. Guardo muitas recordações de solidariedade de Luiz. Não media esforços para fazer um favor. Dirigiu o hospital distrital do DF e os conterrâneos – independente de posição política – eram atendidos, quando o procuravam.

                “Xico Cuxia” faleceu com 72 anos de idade. Era forte física e espiritualmente. Resistiu a enfermidades graves, como operação de safena, aneurisma, problemas pulmonares. O seu temperamento aberto atraía amizades. Quando encontrava alguém triste logo perguntava: “tristeza por quê? Está devendo, ou levou chifre?”. Uma das maiores dores que teve foi o acidente com o seu dileto amigo de infância, Adelmo Aquino, que sobreviveu e é paraplégico. Viajou à SP e lá passou mais de um mês para acompanhar de perto a recuperação de Adelmo.

                “Xico” deixa viúva a esposa amiga e solidária, Maria Feliciano do Rego Torquato e os filhos Ana Fabíola Nunes do Rego Torquato, casada com Dr. Glauber Rego; o vice-prefeito de Pau dos Ferros, Luiz Fabrício Rego Torquato, liderança política emergente, casado com Renata; Monalisa do Rego Torquato, casada com Lindolacio Aquino e José Fábio do Rego Torquato.

                Choro a morte do amigo “Xico Torquato”. Procuro cultivar sempre a gratidão. E a ele devo a solidariedade política e a amizade permanente. O seu perfil humano, na expressão de Mark Twain, era semelhante a um tipo de linguagem, que o surdo ouvia e o cego conseguia ler. Ele possuía coração, que nunca endurecia; temperamento que não oprimia e toque pessoal que não abrigava a mágoa, ou o ressentimento.

                Partiu Xico Torquato. De longe, avistamos o barco em que navega na eternidade. Como Drummond repetimos o verso: “o barco lá fica banhado de brisa aveludada, açúcar, e os bem-te-vis, já esquecidos, de perpassar, dormem no espaço”.

                Que Deus o receba e o acolha para sempre!    

  • Ney Lopes – Jornalista e ex-deputado federal

  Artigo publicado no jornal Gazeta do Oeste

  13/12/2009 - Mossoró - Rio Grande do Norte

 

 
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