|
Faleceu
em São Paulo Calazans Fernandes. Devo-lhe muito da minha formação
jornalística. Estimulado por ele e Manoel Chaparro (o português que
dirigiu o jornal A ORDEM, em Natal) cheguei a ganhar o “prêmio
Esso de Reportagem”.
Calazans
definia o jornalismo como a busca do “furo”. Primava pela clareza
das primeiras linhas do texto para o leitor interessar-se. Acertamos
instalar um jornal em Natal. O nome seria “O repórter”. Ficou em
sonho. Faltou dinheiro.
Quando
chefiou a redação do Jornal do Brasil percebeu um gavião pousado
na torre/relógio da Mesbla no Rio de Janeiro. Mobilizou os
repórteres para cobrir o tal gavião, que passou a ser manchete. Uma
multidão de pessoas diariamente ficava à frente da Mesbla para
discutir o tema “gavião”. Vendeu muito jornal!
Calazans
foi grande amigo de Jaime Dantas, conterrâneo e jornalista de
projeção internacional, que o chamava pelo apelido de Marcelino
Vieira – sua terra natal - "Chico da comadre Toinha".
Foram seminaristas.
Conta
Roberto Dantas, filho de Jaime, que os “dois” sempre bolavam algo
e pensavam em fazer matérias sobre o RN. Quando trabalhavam na
revista americana “Time” conseguiram doações para a banda de
música da cidade de Marcelino Vieira. Como premio, a banda compôs
os dobrados Calazans Fernandes e Jayme Dantas.
Certa
vez, Jaime e Calazans levaram para o Rio de Janeiro, Ascenso
Ferreira. Na casa de Jaime, o poeta sertanejo “excedeu-se”
na galinha caipira ao molho pardo. Terminou chorando e declamando os
seus poemas. Os dois fizeram matérias inéditas sobre
Ascenso, publicadas na mídia nacional e internacional.
Ao
assumir a secretaria de educação do RN, no governo Aluízio Alves
(1962), Calazans juntou-se a Jaime, que era o correspondente da
revista “Time” no Brasil e conseguiram impressionar o presidente
John Kennedy para liberar milhões de dólares (Aliança para o
Progresso”), destinados a um mega programa de alfabetização em
massa, a base do método do professor Paulo Freire.
O
nordeste brasileiro era visto como o caldeirão das “ligas
camponesas” de Francisco Julião. Como acreditar que o governo
americano doasse dólares para financiar programa de um intelectual
da esquerda? Por incrível que pareça, tudo deu certo.
Em
1966, após trabalhar com ele em Recife na FOLHA, JC e DP -
vinculei-me a Odilon Ribeiro Coutinho e ajudei a fundar o MDB no RN.
Com 21 anos candidatei-me a deputado federal. Tempos duros! Ao final,
milhares votos, porém não alcançado o quociente eleitoral.
Em
1967, Calazans vai para a FOLHA. Convidou-me. Preferi casar, ficar em
Natal como correspondente da Folha, Diário de Pernambuco e advogado.
Com ele foram Gaudêncio Torquato e Manuel Chaparro, colegas em
Recife.
Além
da editora abril, Calazans trabalhou com Roberto Marinho, na Globo.
Ajudou a criar a Fundação Roberto Marinho e os telecursos de
educação a distancia.
Em
1974 candidatei-me a deputado federal. Calazans dirigia a editora
abril. Pediu-me uma foto colorida. Tirei-a com Lolita, que me
presenteou. Na campanha recebi a doação de milhares de cartazes
coloridos, que fizeram sucesso, pela qualidade do papel e impressão.
Nem o frete paguei. A inveja e a maldade caíram impiedosamente sobre
mim. Insinuaram que usara recursos do Estado. Na revolução, não
havia o direito de defesa. Prevaleceram as criminosas denuncias
“encomendadas” na imprensa marrom. Incrivelmente, esta foi uma
das causas da cassação do meu mandato, em 1976. Calazans
revoltava-se quando se referia a esta ignomínia.
Partiu
um amigo. Deixa o perfil do idealista e lutador intemerato.
Publicado
aos domingos nos jornais
DIÁRIO DE NATAL e GAZETA DO OESTE
Natal
e Mossoró - Rio Grande do Norte
|