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O
aumento do colesterol – gordura no sangue – faz mal ao organismo.
Na política, a gordura aumenta com o excesso de contradições do
poder. Embalado por índices elevados de popularidade, o presidente
Lula acumula grande quantidade de gordura, que lhe provocou recentes
crises de hipertensão política, algumas não diagnosticadas. A
última ocorreu dentro do avião presidencial, quando se preparava
para decolar de Recife rumo ao centro do capitalismo internacional,
Davos na Suíça.
A
impressão que se tem é que o governo federal confia unicamente no
carisma presidencial. Parte do princípio de que o Presidente pode
tudo, inclusive explicar posições contraditórias, com o uso de
metáforas e palavras, que soam bem aos ouvidos da população
desinformada. Este quadro acumula a gordura política da popularidade
e provoca hipertensão, uma vez ou outra.
Tomemos
alguns exemplos.
O
presidente confirmou, ao mesmo tempo, presenças no Fórum de Davos
(Suíça) e no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, que desde 2001
se reúne para combater o neoliberalismo e o domínio do mundo pelo
capital por qualquer forma de imperialismo. Dois eventos inteiramente
conflitantes. Um nega o outro. Mistura de azeite com água. A
tentativa presidencial de conciliar as tendências ideológicas em
debate causou-lhe hipertensão política, o que justificou a
ausência. Seria o mesmo que promover um diálogo de Obama com
Stédile (MST) sobre os benefícios do livre mercado.
Em
Davos, representado pelo Ministro Celso Amorim, o presidente se
credenciou junto aos banqueiros internacionais pela defesa da solidez
do sistema financeiro, como condição para o desenvolvimento, o que
lhe valeu um prêmio especial. Tomou conhecimento das pesadas
críticas feitas ao Presidente Obama, qualificado de “moleque”
por desejar taxar os bancos beneficiários do recente plano de ajuda
do governo americano. Afinal, com quem o Brasil concordou em Davos?
Com as críticas a Obama, ou a intervenção dele nos Bancos
americanos para cobrar mais impostos? No Fórum Social Mundial de
Porto Alegre, que discurso faria Lula? Apoio às apimentadas críticas
dos banqueiros, ou salgados aplausos ao governante dos Estados
Unidos? A mescla do sal com a pimenta provocaria inevitável
hipertensão política.
Ao
mesmo tempo, o governo desafiou o Tribunal de Contas da União, que
suspendeu obras públicas federais, por supostas irregularidades. O
TCU é o braço direito do Congresso Nacional. Tocar nele significa
atingir o vespeiro congressual. Mais sal e pimenta na dieta do
Planalto, provocando crises políticas hipertensivas, com certeza.
Outro
foco de tensão recente, também propício à hipertensão política
foi o episódio de Honduras, no qual a política externa brasileira
protagonizou a tragicomédia de abrigar, durante vários meses, o
ex-presidente Zelaya em nossa embaixada. O povo hondurenho deu prova
de fortaleza democrática. Fez a transição pacífica, sem
transigir. Afinal, Zelaya saiu do governo, por decisão unânime da
Corte Suprema, a maioria do Congresso e dos partidos políticos,
inclusive o dele, por desejar impor unilateralmente mudança em
cláusula pétrea constitucional. Se isto for golpe – como insistem
os chavões internacionais – desapareceria das Constituições o
afastamento presidencial por “impeachment”. Collor, por exemplo,
teria sido vítima de um golpe no Brasil, o que não aconteceu.
Neste
quadro político hipertensivo caminha-se para a eleição de 2010,
com a reforma política vergonhosamente engavetada. Os gastos de
campanha continuarão a ser o foco das denuncias e escândalos
futuros. Não há como deixar de ser assim. As campanhas custam caro,
todo mundo sabe. Nos Estados Unidos as despesas eleitorais são
feitas às claras. Reegan elegeu-se Presidente com financiamentos
transparentes da indústria eletrônica e o compromisso de instalar
um pólo industrial no Vale do Silício. Eleito, cumpriu a promessa e
a América hoje concorre com os japoneses, além da oferta de
milhares de empregos. Assisti duas convenções partidárias
americanas. Uma semana de festas financiadas por empresas e pessoas
físicas, com placas indicativas sobre a origem do dinheiro gasto.
Tudo à luz do meio dia.
No
Brasil, a regra é proibir e permitir tudo, ao mesmo tempo. O ilícito
se origina na hipocrisia da lei, que regulamenta os gastos de
campanha. As farisaicas exigências na contabilidade eleitoral
“aparentam” uma lisura inexistente. . A justiça eleitoral
cumpre o seu dever. Faz o que pode.
Mas,
infelizmente, ela não pode fazer a lei. A causa está na omissão do
Congresso Nacional.
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Revista Brasilia em Dia
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