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No
dia seguinte a derrota do Uruguai para a Holanda vi na Internet
registro no jornal “El Pais” de Montevideo sobre os festejos
populares após o jogo e a manchete: “Uruguai ganhou nas ruas, em
que pese não ir à final”. Na Argentina o povo recebeu
carinhosamente em Buenos Aires a seleção derrotada por 4 x 0, no
jogo contra a Alemanha. O presidente da CBF de lá, Julio
Grondona, declarou ao “Clarin”, que Maradona seria mantido como
técnico e “poderia fazer o que queira”.
Comparei
as reações na Argentina e no Uruguai e a forma de
recepção
da
seleção no Brasil, sob
vaias e apupos, com a exceção dos gaúchos, conterrâneos de Dunga.
Foram esquecidos os méritos de Julio Cesar, Lucio, Kaká, Robinho e
tantos outros. Não se trata de encobrir a decepção do torcedor.
Porém, humanamente será justo omitir as alegrias que todos eles já
proporcionaram ao Brasil? O próprio “vilão” Luis Fabiano,
minutos antes do lance infeliz do gol contra, dera o passe mágico
para Robinho abrir o placar. Nada disto vale?
Será
que não houve nenhum esforço em 2010? Ou, se repetiu a tradição
de serem apontados “vilões” nas horas de derrotas, cujos
exemplos foram Toninho Cerezo, crucificado na Copa de 1982, pelo
passe errado que deu no lance que originou o segundo gol da Itália;
Zico em 1986 ao perder um pênalti contra a França, que daria a
classificação ao Brasil; Ronaldo o “fenômeno” em 1998 pelo
fraco desempenho na derrota contra a França (3 x 0), recuperado
quatro anos depois como artilheiro do penta na Coréia do Sul e
Japão; e Roberto Carlos em 2006 ao ajeitar a meia no instante do gol
francês de Thierry Henry, que nos valeu a eliminação.
O
futebol é o retrato 3 x 4 da vida. Para encobrir interesses e
salvar aparências praticam-se atos injustos. No final, quem “paga
o pato” são técnicos e jogadores. Na vida humana acontece a mesma
coisa. O que se apresenta ao público não é, regra geral, o que
deveria ser apresentado. A opinião pública desinformada reage,
muitas vezes, levada pela emoção e responsabiliza o mais fraco.
Qualquer que seja a situação, não se pode jogar na lata do lixo o
talento, o trabalho criativo, a lealdade, por razões que não sejam
aquelas ditadas pelos sentimentos da tolerância e respeito.
A
seleção brasileira não morreu. Napoleão Bonaparte afirmava, que
para ganhar uma guerra são necessários bons soldados, armas e muita
sorte. No futebol, bons jogadores, bom técnico e a sorte que faltou
ao Brasil este ano. Por isto, o revés foi apenas uma etapa, a ser
superada. Costumo repetir que a ingratidão e a inveja são irmãos
siameses. Se o Brasil não aplaude Dunga e seus comandados, também
não deve desprezá-los. Eles fizeram muito pelo nosso futebol.
Somente
a inveja e a ingratidão tentam desconhecer. Dunga, o capitão da
seleção, que em 1994 levantou
a taça de campeão da Copa do Mundo. Em 1990, ele fora
qualificado como “jogador sem talento”. Quatro anos mais tarde
era destaque na conquista do tetra campeonato. Questionei o “estilo
Dunga” como técnico, porém reconheço que sob o seu comando e a
presença de quase todos os jogadores atuais, o Brasil se classificou
para ir à África, além de conquistar a Copa América em 2007 e a
Copa das Confederações, em 2009.
Por
condenar a ingratidão e a inveja - o chamado “talento” dos
medíocres - não compartilho com a onda de condenações à nossa
seleção. Mesmo triste e surpreendido pela derrota, ela merece voto
de louvor, por ter continuado o sonho do nosso futebol, cujo futuro
continua promissor.
- Ney
Lopes – Jornalista;
advogado, professor
de direito constitucional e ex-deputado federal.
Publicado
aos domingos nos jornais
DIÁRIO DE NATAL e GAZETA DO OESTE
Natal
e Mossoró - Rio Grande do Norte
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