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Passadas
as emoções da Copa do Mundo na África do Sul, as atenções se
voltam para o Brasil em 2014. Neste cenário, insere-se Natal como
sub-sede do mundial. Nada tenho contra. Porém, é preciso ponderar
que nem tudo são flores. Simon Kuper, colunista do Financial Times,
escreveu que no dia da escolha da África do Sul para sediar a Copa
do Mundo, o bairro negro do Soweto, em Johanesburgo, gritou: "a
grana está vindo!". Não foi bem assim. Dados recentes
confirmam o estouro no orçamento previsto. A estimativa inicial era
de R$ 2.1 bilhões.
A
despesa pública federal ficou em torno de R$ 9 bilhões, afora
milhões de reais de investimentos dos estados e municípios não
computados. A iniciativa privada quase nada colocou do seu próprio
bolso. Reivindicou (e obteve) empréstimos a longo prazo, isenções
de impostos e outros incentivos. Com pressões descabidas por mais
vantagens, certas empresas - tidas como parceiras -, se aproveitaram
do fato da FIFA se mostrar tensa com a demora da preparação do
país.
Alguns
estádios - como o “Soccer City” - ficaram prontos depois do
prazo. Corredores de ônibus foram concluídos às vésperas do
inicio da Copa. O trem de alta velocidade, que liga o aeroporto
a Johannesburgo, foi terminado com apenas três dias de antecedência
e custou muitas concessões adicionais do governo. Depois do mundial,
a África do Sul continuará a pagar a conta. Terá ainda de
administrar greves de trabalhadores por atrasos de salários,
ocorridas nos últimos meses, que não eram comuns antes.
No
Brasil, a previsão de gastos para 2014 já gira em torno de $ 25
bilhões, sem falar na melhoria de aeroportos. O valor total atinge
hoje mais do dobro, do que a África do Sul desembolsou para realizar
o torneio mundial. As despesas com estádios seriam de R$ 2 bilhões,
segundo a CBF. Já alcançam mais de R$ 5 bilhões, antes de serem
iniciadas as obras civis. Os investidores privados só falam em
aumentar as “benesses” do BNDES, que abriu linha de crédito de
até R$ 400 milhões por estádio, com vencimento a perder de vista.
As garantias dos empréstimos têm origem em bens públicos... Quer
dizer: o investidor viabiliza a obra, com os imóveis do governo.
Incrível!
Outro
ponto de estrangulamento serão os custos com a segurança pública.
Na África do Sul dobraram em relação à previsão inicial. Subiram
para 41 mil, os 31 mil policiais inicialmente previstos para garantir
o evento. Em 2014, caso porventura se propague insegurança no mundo
– violência e terrorismo – estes gastos poderão alcançar somas
astronômicas, não apenas do governo federal, mas de estados e
municípios.
O
professor em gestão de esporte, Aldo Azevedo, analisou pontos
fundamentais de um evento esportivo com a dimensão da Copa de 2014.
Lembrou que “os recursos utilizados para a realização dos Jogos
Pan-Americanos no Rio de Janeiro tiveram a previsão inicial de
investimento triplicada, em razão da falta de condições e de
estrutura esportiva do país”. Destacou, ainda, a realização em
2004 da Euro-Copa em Portugal, a maior causa do atual déficit
financeiro e endividamento do país.
A
cartolagem que domina as entidades do esporte brasileiro destinou
para cenário de novela na TV, o “elefante branco” e
“superfaturado” velódromo, construído com dinheiro público nos
Jogos Panaamericanos do Rio de Janeiro em 2007. Ou muda tudo isto, a
começar pelo saneamento da CBF como sugeriu o Presidente Lula, ou a
Copa de 2014 começa a ser preparada com dúvidas e apreensões.
Neste contexto, como ficará Natal, uma das sub-sedes?
Significará uma “varinha
mágica” para o desenvolvimento da nossa cidade? Não custa
nada o bom senso de avaliar e ponderar, enquanto há tempo.
- Ney
Lopes – Jornalista;
advogado, professor
de direito constitucional e ex-deputado federal.
Publicado
aos domingos nos jornais
DIÁRIO DE NATAL e GAZETA DO OESTE
Natal
e Mossoró - Rio Grande do Norte
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