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O
mundo assistiu nas telas de TV, no último dia 22 de julho, o
grotesco cenário montado pelo presidente da Venezuela Hugo Chávez
para anunciar que estava rompendo relações diplomáticas com a
Colômbia. Ao seu lado, Diego Maradona (!!!), o técnico da seleção
da Argentina, com olhar maroto. O presidente confirmou ter colocado
as suas tropas em “alerta máximo”, como resposta às denúncias
apresentadas pelo embaixador colombiano na OEA (Organização de
Estados Americanos) sobre a presença de rebeldes das Farc (Forças
Armadas Revolucionárias da Colômbia) e do ELN (Exército de
Libertação Nacional), em território venezuelano.
Não
é a primeira vez que o presidente Chávez assim age. Em março de
2008, enviou tropas à fronteira, após avanço da Colômbia na
repressão às Farcs. Em novembro de 2009 repetiu-se a cena, com 15
mil soldados venezuelanos deslocados, em protesto à assinatura do
acordo militar da Colômbia com os Estados Unidos.
Até
a conclusão deste artigo sucediam-se tentativas de pacificação
entre os dois países. Com o seu estilo burlesco, Chávez apela para
o patriotismo popular. Repete a cantilena bolivarista, cujo único
objetivo é reduzir as tensões políticas que enfrenta. Neste final
de semana, Juan Manuel Santos assume a presidência da Colômbia e já
sinalizou o desejo de melhorar as relações com a Venezuela. A sua
posse poderá neutralizar a situação, extremamente tensa.
O
chamado bolivarismo de Chávez apoia-se na tentativa de associar a
sua imagem a Simon Bolívar, o líder da independência na América
Latina. O Libertador – como era conhecido Bolívar – tinha
carisma, habilidade política e sonhava em construir a “Pátria
Grande” - a união do continente, em uma Comunidade Latino
Americana de nações. A propósito, a Constituição
Brasileira de 1988 (artigo 4° - parágrafo único), por iniciativa
do então senador Marcondes Gadelha, incorporou este sonho de
Bolívar, ao estabelecer que “a República Federativa do Brasil
buscará a integração econômica, política, social e cultural dos
povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade
latino-americana de nações”.
Ao
mesmo tempo em que se diz “bolivarista”, Chávez procura também
identidade com José Martí, poeta e jornalista cubano, que se opôs
ao colonialismo em Cuba e outros países da América Latina. Martí
afirmava que “Bolívar ainda tem coisas que precisam ser feitas na
América” e priorizava os princípios da liberdade e da justiça,
sem compromissos com as formas de governo. Bolívar influiu
diretamente na formação de várias repúblicas na América do Sul.
O
“nó górdio” da crise entre Venezuela e Colômbia é o acordo
militar negociado entre Estados Unidos e Colômbia pelo qual 800
militares e 600 civis norte-americanos atuarão em bases aéreas da
Colômbia, a fim de facilitar as operações contra o terrorismo e a
produção de drogas. O acordo, firmado em 2009, está com a
constitucionalidade questionada. No próximo dia 17, a Corte Suprema
da Colômbia decidirá sobre a sua validade jurídica. Em caso de ser
rejeitado, será votado no Congresso, onde o novo Presidente Juan
Manuel Santos tem ampla maioria.
O
governo de Uribe defende a legalidade do acordo, por considerá-lo
complementar a outro acordo bilateral militar vigente desde 1974, que
permite a soldados e assessores americanos usarem pelo menos sete
bases militares colombianas. Caso fracassem as tentativas de
conciliação, a questão poderá ser submetida ao Tribunal Penal
Internacional pela suposta presença de chefes guerrilheiros
abrigados na Venezuela.
Em
verdade, o acordo militar entre Estados Unidos e Colômbia não
criará bases norte-americanas no país andino. Permite que os
Estados Unidos usem as bases militares colombianas, com respeito aos
princípios de integridade territorial e não intervenção, para o
combate às drogas e aos grupos rebeldes citados em listas
internacionais de terrorismo. A decisão de aceitar ou não o acordo
é uma questão de soberania e de autodeterminação da Colômbia.
O
Presidente Lula anunciou que na sexta, 7, estará em Caracas, na
busca de alternativas de paz. Sem dúvida, a mediação brasileira é
necessária. Porém, há que ser feita com transparência e começar
pelo compromisso definitivo da Venezuela de cumprir as suas
obrigações internacionais no combate ao terrorismo e na permissão
para que uma comissão externa visite o país, com plena liberdade.
Se
isto não for feito, a crise pode ser adiada, nunca resolvida.
Continuará sob a forma de fogo
de monturo.
Reascenderá no futuro, com certeza.
Coluna semanal
Revista Brasilia em Dia
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